a triste vida dum chegano

 
Tanta gente a falar línguas estranhas
peles de mil cores, fico inseguro
e como nada sei das suas manhas
só sei que dantes o ar era mais puro.

Todos me dizem que sou um ignorante
até mesmo o malvado do meu mano
tem a mania que é importante
difícil é a vida dum chegano.

Muitos me dizem sempre que sou um facho
reles admirador do Salazar
que o que quero é arranjar um tacho
e que nunca gostei de trabalhar.

E logo eu, que sou contra a corrupção
dos cinquenta anos de socialismo
e já não somos donos da nação
lá vamos caminhando prò abismo.

Não sabemos onde isto vai parar
para tanta gente já não há trabalho
não penses que nos vamos a calar
é melhor teres tento no falar
senão ainda te mando prò c.r.lho!

Zé Varela 
Janeiro de 2026



a inteligência artificial


Nem artificial, nem inteligente
bebe de tudo o que é publicado
dá igual que venha de qualquer lado
do sábio, do boçal, de toda a gente.

Não sabe para onde pende a razão
não separa o sincero do que mente
tudo lhe é igual porque não sente
porque lhe falta o fogo da paixão.

Alimenta muitas teses de doutores 
adormece o pensamento do povo 
embrutece gente atilada e lerda.

Vai-nos transformando em estupores
cada vez terá menos suco novo
e no fim, comerá a própria merda.

Zé Varela 
Janeiro de 2026

nostalgias

 
Os dias de férias sem fazer nada
as folgas à sombra da alfarrobeira
o fresquinho orvalho da madrugada
tardes de verão a nadar na ribeira.

Pisar a geada pela manhã
as tardes de inverno a ler à lareira
mais a chuva a cantar na telha vã
era tão bom viver desta maneira!

Mas tudo passa, tudo tem um fim
sempre pra velho, nunca pra rapaz
se dizes que não será porque mentes.

Já com os avós se passava assim
sempre prà frente, nunca para trás
há que ser afoito e cerrar os dentes.

Zé Varela
Dezembro de 2025