os cheiros dos livros


Olores inebriantes

papel novo

tinta fresca

quais palavras, quais sentenças 

leitura, pra ser leitura

nem que seja de cordel

só pode ser em papel.


Odores de livros velhos

também não ficam atrás 

lenhina em degradação 

aromas dos livros de antes

quando dava gosto tê-los

nas estantes 

qual melhor sensação?

diz-me se fores capaz. 


Agora é o telelé

que anda nas mãos do povo

é objecto que não presta

não tem cheiro nem chorume

mas o progresso não pára 

o livro 

é preciso imitá-lo

e ainda não perdi a fé

de que inventem umas capas

que cheirem a livro novo

ou a velho 

à vontade do freguês 

e ler será um regalo.


uns dizem que sim, outros dizem que não

Sabe-me dizer
comadre Conceição
se ali na venda há pão?
Uns dizem que sim
outros dizem que não
vá-se lá saber
só indo lá ver.

Amanhã vai chover 
compadre Serafim?
Uns dizem que não
outros dizem que sim
não sei, comadre Conceição
não sou adivinhão
como iria saber?

Compadre Serafim
não há como cozer
para comer bom pão.
Uns dizem que não
outros dizem que sim
a mulher está adoentada
comadre Conceição.

Ai coitada
compadre Serafim
grande mulher
a sua Rosa
trabalhadora e carinhosa.
Uns dizem que sim,
outros dizem que não
comadre Conceição.




o meu pego

Ao passar da escola de Santo Estêvão
a quem vem de Messines para a cidade
para o norte vê a ribeira de Arade
e caminhos que ao meu pego levam.

De todos os lados chegavam rapazes
para assim enganarem o verão quente
com um pouco de sorte não havia gente
para fazerem nudismo os mais audazes.

Foi neste meu pego que aprendi a nadar
à agua do mar tinha ganhado medo
quando já tinha onze anos, já não era cedo
força e brio o medo lograram domar

O meu pego, de pobre, nem nome tinha
porém, nunca essa falta causou engulhos
tinha essa água clara, limpa e fresquinha
que de toda a ribeira era mais que rainha
todos a queriam pra dar uns mergulhos.