uma albarda

     — Mãe, compre-me aquela camioneta. — e apontava para uma camioneta de lata na montra do senhor Loução. O que ele queria mesmo era um buldózer. Desde que tinham começado a surribar a terra do Baltazar não largava as máquinas. Quando fizeram uma reparação de fundo no D6, mesmo ali debaixo das alfarrobeiras grandes, ele mal comia para ir para lá a correr. Quando lhe perguntavam o que queres ser quando fores grande, ele quase gritava: serralheiro!

    — Brrrrrr! Que frio! — a Dona Carminho Mendonça entra na loja a fazer que bate o queixo.
    — Senhor Sousa, há algumas novidades?
    — Agora nada, mas lá para Janeiro espero receber muitas.
    Dois dedos de conversa com as manas Tavares, que passam lá quase todas as manhãs. Uma espreitadela para a rua de vez em quando.

    Henriqueta puxa o filho pelo braço.
    — Compro manteiga de vaca. Não queres?
    — Quero! Quero!

    — Dona Carminha, está aqui aquilo que pediu ontem à minha patroa. — a rapariga assoma à porta e estende um envelope fechado.
    — Piedade! Quantas vezes tenho de te dizer que não sou Carminha, sou Carminho?
    Abre o envelope: “Amanhã às 11 horas”.

    Manteiga de vaca é um luxo raro. Cem gramas, embrulhada em papel pardo, de tarde em tarde. Mas sabe tão bem! Quando alguma das vacas está criando, a mãe também aproveita a gordura do leite e bate com sal. É cá um sabor! As vacas são de trabalho, daquelas ruivas de cornos grandes. Dão pouco leite, mas muito forte. Já quase não há trabalho para elas, mas o patrão diz que uma quinta tem de ter uma junta de vacas.
    — Senhor Loução, quero adubos para as chouriças.
    — Quantas arrobas?
    — O meu Joaquim diz que umas oito... e pese-me também cem gramas de manteiga de vaca.

    — O meu marido diz que no banco, de há uns tempos para cá, é uma vergonha. Aparece gente a querer depositar dinheiro, que ainda há pouco tempo os víamos aí virem à vila com uma mão atrás e outra à frente.
    Dona Carminho já não tem pressa. Entretém-se à conversa com as manas e a Dona Guida que às vezes vem ajudar o marido na loja, mais até para espairecer.
    — Atrás de tempos tempos vêm, Dona Carminho.
    — A gente sabe que é assim, senhor Sousa, mas não sei onde isto irá parar.

    — Se Deus quiser, para o ano que vem já pode ser que se tenha dinheiro para a camioneta, Carlos, se a sementeira correr bem. Mas até lá não temos. —  uma lágrima, mas também uma esperança.
    — E uma buldózer!
    — Logo se vê.
    Com o regadio da barragem já alguns se vão equilibrando. Ainda o que vale é que o patrão diz sempre que sim:
    — Senhor Antunes, o que dava agora era surribar aquele bocado de nata do outro lado da ribeira e plantar tomateiras enquanto as árvores crescem. Dá boa sementeira pelo menos por uns três anos.
    — Faça senhor Joaquim, faça! Como você fizer está bem.
    Os feitores da casa não gostam nada, sentem o seu terreno ameaçado. Nem os feitores nem o filho do senhor Antunes.

    O marido da Dona Carminho é gerente do banco, do único banco da terra. Ela até gostaria de ter um emprego, para não se aborrecer tanto. É verdade que não tem mais do que a quarta classe, mas poderia montar uma loja.
    — Tu não precisas de trabalhar. E demais, o que iriam dizer as pessoas? A senhora do gerente do banco a trabalhar?
    Na verdade ele acha que uma mulher apresentável como ela não seria muito seguro trabalhar fora, em contacto com outros homens. A carne é fraca, nunca se sabe. Ainda por cima com menos quinze anos do que ele.

    Descem a rua dos advogados. O Carlos tem que empregar habilidades de equilibrista para se segurar com as botas cardadas na calçada de pedra oleosa.
    — Senhor João, hoje quero pouca coisa. Massa, arroz e açúcar.
    — Pois, vocês agora já têm lá mercearia e esquecem-se de quem precisaram.
    Henriqueta engole em seco, pois algumas vezes tinha precisado de comprar fiado. Não muito, diga-se em abono da verdade. Mas não gostou nada de que lho atirassem à cara, não está habituada a isso.

    A Dona Carminho morria de tédio nesta vila, ela que vem duma terra não muito, mas um pouco maior. Isso não escapou ao Dr. Taborda, advogado de renome na praça. Encontram-se de vez em quando em casa da Dona Eugénia, viúva de há muitos anos e patroa da rapariguita de há bocado.

    — Carlos, agora já só falta ir comprar o cotim para as calças do teu pai, que já não tem nenhumas que não pareçam o mapa de Portugal.
    — O mapa de Portugal?
    — Sim! Cheias de remendos. Quando fores para a escola logo aprendes o que é o mapa de Portugal. Aproveito e com o dinheiro dos ovos compro também uns oitenta centímetros de chita para fazer uma saia para mim. E depois vamos esperar a camioneta da uma.

    Na loja continuava a conversa animada, agora tinha-se juntado também a Dona Elisete, esposa do Dr. Delegado do Ministério Público.
    — Uma pessoa já não sabe o que há-de usar que as pobres não usem. — e a Dona Carminho não via os sinais que o senhor Sousa lhe fazia apontando o queixo para a porta por onde Henriqueta entra com o Carlos pela mão.
    — Uma albarda, minha senhora. Compre uma albarda! Que isso as pobres não usam!

o parafuso

     Chovia que Deus mandava. A lama era tanta que a bicicleta não ajudava. Era preferível continuar a pé e a bicicleta servir de apoio para se equilibrar. A luz nem pensar, o dínamo nem rodava com a lama que se acumulava no pneu. O que vale é que conhecia aqueles caminhos tão bem que se guiava pelas silhuetas das oliveiras e das alfarrobeiras. E se o doutor tiver saído? As silhuetas de vez em quando desapareciam quando a chuva batia com mais força. Tinha que chegar à do Mogo para daí telefonar para o doutor Matias. A seguir à do Pinguinhas a chuva amainou. Agora era a descer e melhor caminho, experimentou a montar-se na bicicleta, mas depressa desistiu. Escorregava aqui, encalhava ali, e receou que pudesse cair, ficar mal e não conseguir chamar o doutor a tempo. E se o doutor tiver saído? Afastava este pensamento com um gesto da mão. Mas de vez em quando ele voltava e era insuportável. Era só mais uma subida e depois já se havia de ver a venda do Mogo lá  em baixo antes da curva. Havia de se ver se a chuva não tivesse voltado outra vez com força. Quando chegou à portela suava debaixo da samarra. Encharcado, o suor misturava-se com a água que escorria pelas calças abaixo. Mas agora já era sempre a descer.

    — Eduardo, hoje não me apetece sair. — e passava a mão pelo cabelo do marido, já a ficar grisalho.
    Ele fez que não ouviu.
    — Apetece-me ficar aqui no quentinho ao pé do fogo. — e adoçava a voz.
    Procurava desculpas, não porque não gostasse também das saídas, mas receava que ele se estivesse a viciar no jogo. Não notava que ele perdesse o controlo, mas a verdade é que desde que abriram o casino na Almadrava era vê-lo lá quase todas as noites.
    Ele foi até à janela e ficou a olhar para a chuva.
    Foi quando o telefone tocou.
    — É para o senhor doutor.
    — Quem é, Laurinda?
    — É o senhor Domingos Parafuso. Desculpe o senhor doutor, eu não sei o nome dele. Toda a gente o conhece por Parafuso.
    — Não faz mal, Laurinda.

    O doutor Matias era um lavrador. Filho único, o pai deixou-lhe três quintas espalhadas pela freguesia e mais as casas na vila, junto ao que antes tinha sido lagar de azeite, e agora são arrecadações de apoio às quintas. Homem pacato, alia gostos refinados a maneiras rústicas, por vezes a raiar o rude. São lendários os seus lapsos. Conta-se que uma vez receitou a um paciente “duas carradas de estrume e um bidón de gasóleo”.

    — Problema resolvido, Hilda, já não precisas sair. Eu é que tenho que ir ao Vale da Lama.
    — Com um tempo destes?
    — É o filho do Parafuso. Tenho que ir, pelo que ele me descreveu é uma difteria, garrotilho. Pode ser fatal se não for medicado.
    — Eu sei. — e passava a mão pelo cabelo do marido, agora sem fingimento. — e sabes o caminho?
    — Acho que seria capaz de lá ir ter, mas pelo sim, pelo não, e com este tempo, ele está à espera na venda do Mogo.

    Já passa muito da meia-noite quando o doutor Matias parou o Peugeot 404 novinho e todo enlameado na rua da venda do Mogo, onde o Parafuso tinha deixado a bicicleta no alpendre. Era mesmo um garrotilho, e tinham chegado a tempo.
    — Agora não tenho como lhe pagar, doutor, mas diga-me quanto é, e pagarei assim que puder.
    — Quinhentos escudos. — com o escuro não se vê a cara do Parafuso, mas é melhor assim.
    — Isso não é muito, doutor? — balbuciou ao fim dum momento.
    — Quem quer bons ofícios aprenda-os.

    Estava o Parafuso a jogar às cartas à do Mogo num domingo à tarde quando chegou o filho do quinteiro do Azinhal na bicicleta à sua procura:
    — O doutor Matias quer que você vá lá à quinta pra arranjar o carro.
    — O novo?
    — Não! O boca de sapo.
    — Diz que já lá vou. É só acabar a partida.

    Domingos Cabrita Guerreiro é conhecido por toda a freguesia e arredores por Parafuso. Há quem tenha alcunhas muito menos a propósito. O Parafuso é um exímio mecânico, de automóveis, de máquinas agrícolas, de camionetas, de motores de rega e industriais. De tudo. Estão a ver aqueles músicos brilhantes que tocam de ouvido e sabem o que ninguém lhes ensinou. O Parafuso é isso mesmo, mas com a mecânica.

    — Grandes carros, doutor. Já está como novo. Tem aqui carro para mais uns vinte anos. É só estimá-lo.
    — E quanto é, Parafuso?
    — Quinhentos escudos.
    O doutor Matias abriu a boca de surpresa:
    — Eu não te comprei um carro, só mandei consertar este.
    — Quem quer bons ofícios aprenda-os, senhor doutor.

tens que o deixar andar à solta

     Quase todos os dias se cruzavam pelo jardim, deserto àquela hora matutina. Sozinho um, passeando o rafeiro o outro.
    O miúdo segurava o rafeiro com uma corda. Este nunca desistia de tentar cumprimentar o velhote sempre que se cruzavam; talvez o fizesse com toda a gente; abanava o rabinho e estrebuchava, sempre irrequieto. Como todos os cachorros farejava incansável todos os recantos qual criança explorando o mundo.
    O velhote, se tivesse condições, ia ao canil buscar um cão. Tinha um gato, ainda dos tempos da mulher; já velhote e rameloso, mesmo assim independente. Um cão é diferente; acompanha-nos a passear, obedece, dá ousio, como fazia o “Pombinho” lá na terra. Há tantos anos, tantos. Foi uma ovelha que o matou; ele encontrou uma cadela no cio, a ovelha não simpatizou com a relação, marrou em ambos separando-os à força. O “Pombinho” veio a morrer uns dias depois. Se fosse hoje tinham-no levado ao veterinário.
    Não! Não andaria com o cão pela trela, não o prenderia. Afinal o cão é inteligente para aprender a andar em qualquer rua, para evitar os carros, até para atravessar na passadeira melhor que muitos humanos.
    — Tens que o deixar andar à solta. — atreveu-se um dia a sugerir ao miúdo. Este acelerou o passo.

    O miúdo fazia-lhe lembrar o seu Luís, sem serem sequer parecidos. Há tantos anos, foi ainda antes de ser chamado para a fábrica. Tinham feito o canal de rega havia tão pouco tempo. E qual era o melhor caminho para a escola senão a banqueta do canal? Digam-me! Digam-me se souberem. Um dia escorregou, ou distraiu-se, sabe-se lá, com algum passarinho, alguma lagartixa.
    — Ó, Belmira, não achas que devíamos arranjar outro gaiato?
    Ela fechava-se. A seguir evitava-o.
    Nunca tirou a limpo, mas acabou convencido de que ela se recriminava pelo sucedido. Mas como poderia evitar, meu Deus? Como? Com o tempo deixou de insistir.

    A mãe do miúdo morreu tinha ele sete meses. O pai nunca se soube quem era. Criado com a madrinha a quem chamava mãe.
    — Renato, toma cuidado com estranhos. Nunca aceites nada de ninguém. Toma mais cuidado ainda com quem queira meter conversa. Há gente muito má!

    O velhote nunca se habituou a ver os cães presos, não conseguia entender. Gostava muito do dito: “o sol é que nos faz”. Entendia ele que a vida se faz enfrentando as dificuldades. Talvez, sem o saber, sentisse que o que faltou ao Luís foi calo da vida para não se deixar apanhar pelo canal. O miúdo tão calado, tão pouco sociável, aprisionando o seu rafeiro querido, não o deixando viver e aprender, desgostava-o. Sem dar por isso tinha ganhado afecto àquele desconhecido e ao seu rafeiro. Muitas vezes tentou a aproximação sem sucesso.

    — Ó mãe, há um velho no jardim que mete muitas vezes conversa comigo.
    No dia seguinte a madrinha vigiou de longe e confirmou.
    Quando o velhote entrou na padaria, calou-se tudo. Mais à frente teve a impressão de que tinham ficado a falar nas suas costas. Mas o pior foi quando a mulher do alfaiate à sua passagem cuspiu no chão e disse baixo, mas de maneira audível:
    — Porco! Velho porco!
    O velhote caiu em si.

    Nessa noite não dormiu. Chorou por todas as muitas décadas sem chorar. Chorou pelo Luís, pela sua Belmira, chorou pela mãe, chorou pelo pai, chorou pela avó, chorou pelo miúdo, chorou pelo rafeiro, chorou por si próprio.
    Antes das cinco pôs água e comida ao gato deixou a porta encostada e caminhou devagar para o jardim. Laçou a corda numa pernada da árvore por cima dum banco... Preso com uma pedra sobre o banco deixou à laia de despedida: “Tens que o deixar andar à solta”.