nostalgias

 
Os dias de férias sem fazer nada
as folgas à sombra da alfarrobeira
o fresquinho orvalho da madrugada
tardes de verão a nadar na ribeira.

Pisar a geada pela manhã
as tardes de inverno a ler à lareira
mais a chuva a cantar na telha vã
era tão bom viver desta maneira!

Mas tudo passa, tudo tem um fim
sempre pra velho, nunca pra rapaz
se dizes que não será porque mentes.

Já com os avós se passava assim
sempre prà frente, nunca para trás
há que ser afoito e cerrar os dentes.






despenteado mental


Com três neurónios vim ao mundo
cheguei de cabeça cheia
mas com este mundo imundo
a coisa foi ficando feia.

Com os padres fiz faísca
como era de esperar
quiseram lançar-me a isca
e impedir-me de pensar.

Perdi o primeiro, pois
destroçado no confronto
tive que ficar com dois
sem outro remédio, pronto!

Pus um para cada lado
e com a marrafa ao meio
andei sempre penteado
e nem parecia feio.

Mas a vida não parou 
e seguiu o seu caminho
quando o Cavaco chegou
arrumei o cavaquinho.

Para evitar misturas 
e fugir às maiorias
esta vida é só agruras
mas isso tu já sabias.

E no fim pouco sobrou
e fui cair lá no fundo
um só neurónio ficou
porque perdi o segundo.

Agora já tenho também
aquela manha já bem velha
o neurónio puxo bem
e vai de orelha a orelha. 

E assim será o meu fado
seja por bem ou por mal 
nem querido nem odiado
hei-de sempre ser chamado 
o despenteado mental.