despenteado mental


Com três neurónios vim ao mundo
cheguei de cabeça cheia
mas com este mundo imundo
a coisa foi ficando feia.

Com os padres fiz faísca
como era de esperar
quiseram lançar-me a isca
e impedir-me de pensar.

Perdi o primeiro, pois
destroçado no confronto
tive que ficar com dois
sem outro remédio, pronto!

Pus um para cada lado
e com a marrafa ao meio
andei sempre penteado
e nem parecia feio.

Mas a vida não parou 
e seguiu o seu caminho
quando o Cavaco chegou
arrumei o cavaquinho.

Para evitar misturas 
e fugir às maiorias
esta vida é só agruras
mas isso tu já sabias.

E no fim pouco sobrou
e fui cair lá no fundo
um só neurónio ficou
porque perdi o segundo.

Agora já tenho também
aquela manha já bem velha
o neurónio puxo bem
e vai de orelha a orelha. 

E assim será o meu fado
seja por bem ou por mal 
nem querido nem odiado
hei-de sempre ser chamado 
o despenteado mental.

Zé Varela
Dezembro de 2025

que vais dizer aos teus netos?


Não falo para os que estão 
do outro lado 
da civilização
dizem-me para ter tacto
mas com quem
não há ponto 
de contacto
não está ao meu alcance.

Falo contigo
que te consideras amigo
da humanidade
e já perdeste a dignidade 
a solidariedade
e até a caridade
já só olhas de relance
e assobias para o lado.

Que vais dizer aos teus netos?
que não viste?
que não ouviste?
que não sabias de nada?

Zé Varela 
Outubro de 2025


a aura

 
Antigamente era melhor
a linhagem as trazia
e de berço se aprendia
o seu uso, o seu cuidado.

Depois veio a populaça
sem respeito pela raça
e já qualquer professor
mesmo que seja filho
de gente sem pedigree
pode adquirir uma aura
não de ouro, não de prata
(isso é que era bom!)
lá se ia o ordenado.

Uma de arame lhe basta
à altura da baixa casta
e nem a sabe cuidar
para não perder o brilho.

Devem limpar-se a diário
com Solarine do antigo
digo eu que sou amigo
e nem sou nenhum otário.

E mais ainda te digo
de todo o meu coração
digo e insisto
que oiças o ministro
nas suas palavras breves
e nunca a leves
à manifestação
que a bandalheira se instaura
e lá se vai a aura
da tua profissão.

Zé Varela 
Setembro de 2025