Acorda, meu amor
já amanhece
não vês aquela estrela?
que se despede
e desvanece
com o alvor.
Sabes porquê?
o porquê da despedida
não é o que parece
os homens acreditam
que ela não é capaz
de com o Sol competir
e ela tem que ir
mas não
não é nada disso.
Ela não se despede
apenas se retira
porque agora não faz falta
agora vem o dia
mas ela está alerta
e
sempre que escurecer
como uma janela aberta
ela virá
para ti.
tudo o que aqui publico é de minha autoria e nada do que aqui lemos aconteceu; mas tudo poderia ter acontecido, nem que fosse nos sonhos dos personagens
a estrela alerta
um achigã com brinde
Os olhos azuis, as bochechas rosadas, o cabelo loiro, em finos caracóis. É tal e qual, tal e qual. O pensamento do Frederico voa para longe, vinte e três anos lá atrás.
Os olhos da Ivone seguem-lhe o olhar, quem será aquela lambisgóia?
— Fred, estou a falar contigo. Onde tens a cabeça? Eu vou escolher o cabrito, e tu?
— O que há?
— Estás a ver? Não estás cá. Tens a lista na tua frente.
— Eu vou... eu vou... no cozido. Com este ambiente acolhedor apetece-me cozido. Que é que queres beber? Mandamos vir uma garrafa de tinto de reserva? Hoje é um dia especial.
Ele disse “um dia especial”? Que será que tem na manga?
O Frederico não resiste a olhar de novo.
Num impulso maquinal os olhos da Ivone visam a mesma direcção. O quê? A lambisgóia já lá não está?! Então para onde é que ele olha? Só pode ser para esta que está com a família. Sim, senhor! Bonito serviço, uma mulher casada, um marido por sinal com muito bom aspecto, uma filha tão linda; resumindo: uma família perfeita. Deve ter sido alguma namorada. Mas ela é muito discreta, nem dá sinal de nada. São as piores.
É que é mesmo tal e qual. O pensamento do Frederico não se consegue descolar daquela madrugada de Outubro de 73; involuntariamente desliza até às profundezas dos dias, semanas, que se lhe seguiram.
— Fred! Acorda!
E o que o Frederico ouve é “Pim!”
Alguns minutos depois: “Pim!”
Com uma regularidade de relógio: “Pim!”
Tentou contar os segundos entre os “pins”. Contou seiscentos e trinta e sete de uma vez. De outra contou seiscentos e quarenta e nove, de outra contou seiscentos e trinta. O barulho da pequena gota de água no fundo do lavatório atinge proporções gigantescas que parece quererem rebentar-lhe as meninges. Nunca soube se a torneira foi deixada assim de propósito. Talvez não, em qualquer caso o melhor era não dizer nada para não dar ideias aos esbirros.
Dantes a PIDE batia a torto e a direito; arrancavam dentes, arrancavam unhas, torciam testículos, apagavam cigarros na pele… Depois foram aprendendo que à dor física é mais fácil resistir. A tortura do sono agora é rainha; ao fim de alguns dias começas a delirar, vês monstros, vês aranhas, chegas a senti-las. Mas este “Pim!” do pingo da torneira mal vedada consegue ultrapassar tudo o que se possa imaginar.
— Fred! Estou a falar contigo! — outra vez o “Pim!”, não sabe quantos segundos se passaram, não contou.
Até o sorriso é igual, e o “Olá!” quando passaram ao seu lado dirigindo-se à saída. Aquele sorriso e aquele “Olá!” daquela manhã em que a PIDE o levava pelas escadas do prédio suburbano ficou-lhe gravado para sempre, e serviu-lhe tantas vezes de âncora nos momentos mais difíceis. Sempre que a dúvida se tentava matreiramente instalar, sempre que tentava assomar a pergunta: ‘Valerá a pena?’, aquele sorriso, aquele “Olá!” estavam presentes a garantir que vale a pena. Que há de mais precioso que as crianças?
Quando tocaram à campainha teve um sobressalto; pegou na Browning, e a primeira espreitadela foi pela janela; não se enganava, estava cercado. Lembrou-se do que o “Velho” dizia sempre na sua voz branda e pausada enquanto cofiava o bigode:
— Nunca se esqueçam de usar a cabeça. Resistir só quando há hipóteses. Uma prisão é só mais uma, uma vida só temos esta e faz muita falta à causa. Aqui estou eu com os meus cinquenta e um e já nem me lembro quantas vezes fui dentro.
Voltou a colocar a Browning debaixo da almofada e foi abrir a porta. Ainda lhe veio à ideia gritar para a vizinhança que o estavam levando, mas as ordens eram só apelar à massa na rua ou em aglomerações, de preferência de operários. Nesses casos poderia até acontecer que tivesse sorte e eles conseguissem dominar a PIDE. Chegou a acontecer, mas de há muitos anos para cá eles já não se deixam cair em situações dessas. Fazê-lo num prédio de habitação só poderia servir para criar problemas aos moradores. Seguiu calado. Foi quando a menina, levada pela mão da mãe, sorriu para ele e disse:
— Olá! — enquanto a mãe a puxava e mandava calar.
Ao olhar da Ivone, sempre atento a todos os movimentos dos olhos do Frederico, não escapou que o motivo do interesse dos olhos dele afinal era a criança. Por esta é que eu não esperava. O caso é mais grave do que eu pensava.
— Fred???!!! — e o “Pim!” quase lhe dilacerou o cérebro.
Olhou para a Ivone e pareceu-lhe ver a cara do pide José Silveiro, louro, sardento, cínico até ao tutano, por má sorte também algarvio. Estás a ver? E apontava com o queixo o retrato do Che colado na parede do seu gabinete, esse era um herói. Tem uma grande qualidade: está morto!, e ria com o seu riso de hiena. Pensas que nós não sabemos que isto não dura muito? Sabemos melhor do que tu, mas enquanto dura somos nós que mandamos. E mudava de repente do riso de hiena para um ataque de furiosa raiva e recomeçava aos murros e pontapés.
Mas ele sabia que a porrada só servia para espicaçar a resistência dos presos. Mandava levarem-no e ficava sozinho, em crise de desespero. Mais um triunfo. Gostava que o “Velho” visse a cara de derrotado do Silveiro.
— Fred! Quero uma explicação! — “Pim!”
— Vou à casa de banho.
— Não te esqueças que quero uma explicação. — “Pim!”
— Não! Fica descansada que não me vou esquecer nunca.
Uma vez no corredor, chamou o empregado, deixou-lhe uma nota que daria para pagar três almoços e saiu para a rua. Pegou no carro e saiu direito ao rio. Estacionou e dirigiu-se à ponte medieval.
Em cima do passeio, apoiado na guarda, tirou do bolso o embrulho, que desfez, e abriu a caixinha; olhou por um bom bocado o anel de noivado que tinha comprado para oferecer à namorada no fim do almoço. Viviam juntos havia ano e meio. Estava, tinha estado, apaixonado por ela até esta tarde, até ao momento em que os seus olhares e interrogatórios de controlo contínuos se misturaram com o “Pim!” do pingo de água da torneira mal vedada e a sua cara com a do Silveiro. Estendeu a mão e deixou cair o anel na água límpida do rio. À medida que o anel percorria os escassos metros que o separavam da água invadiu-o uma leveza só comparável à que tinha sentido no dia 26 de Abril de 74, ao transpor os portões do forte de Caxias.
Mas o que é aquilo?! Um achigã enorme abocanhou o anel antes que este chegasse ao fundo. Não tinha contado com esta. Pensou que o anel iria ficar no fundo entre os limos até que a corrente no inverno o levasse para o mar.
Chegou um pescador, maltrapilho, não o conhecia, mas devia ser pessoa que pescava para equilibrar a vida, a avaliar pela aparência.
— Boa tarde, amigo! — dirigiu-se ao pescador — Vai pescar aqui ao achigã?
— Boa tarde! Venho com essa intenção. Há problema?
— Nenhum, amigo. Mas se me permite dou-lhe um conselho, se apanhar um assim grande — e assinalava com o dedo da mão esquerda sobre o pulso direito e de mão esticada, — não o venda nem dê a ninguém, leve-o para casa e prepare-o com cuidado. — e foi-se embora piscando o olho.
Mais à frente ainda se voltou para trás:
— Não se esqueça, não o venda nem o dê.
O pescador ficou por um bom bocado a vê-lo afastar-se. Isto é que aparece cada maluco!
cuidado com a valeta
Tinha logo de me calhar a mim! A mim, que nunca tive ambições desmedidas. Nunca fui como aquelas pessoas que vivem dependuradas da esperança de que lhes saia o euromilhões. De vez em quando jogo, mas sempre com um intuito na ideia; vocês podem não acreditar, mas se um dia me sair ajudo muita gente. Já pensei em matar uma ou duas vacas, mais uns quantos porcos, leitões, perus, comprar muito peixe fresco, para quem preferir, e fazer um churrasco gigantesco na minha aldeia. Convido toda a gente, os que gostam de mim e os que não gostam, e no fim dou um envelope bem recheado a cada um, todos por igual, assim sem avisar. Dizem que quem dá de mão beijada não ajuda, mas quem sou eu para fazer o julgamento antecipado de como irá cada um gastar o dinheiro?
Confesso que já algumas vezes me passou pela cabeça comprar antes uma arma a cada um dos desempregados todos que puder e eles que façam o que quiserem com ela. Mas isso é quando estou zangado, passa-me depressa. Não acredito na força do ódio. O ódio é breve, o amor é eterno. Conheci alguns que se tornaram revolucionários por ódio, já não resta nenhum. Por outro lado, os que conheço e se tornaram revolucionários por amor restam todos; mesmo que alguns de vez em quando pareça que se vão abaixo, acabam sempre por ultrapassar a fase baixa. Algumas vezes digo que tenho medo de que me saia o euromilhões, porque não vou saber como gerir o dinheiro; e pior ainda, porque daí para a frente já não irei arranjar amigos, todos os que se aproximem pode ser por interesse. A minha família, os meus amigos, os camaradas da oficina são unânimes:
— Tu és mas é parvo, Alberto. Ele que me saia a mim a ver se eu não o sei gastar. Ai não, que não sei! — é o que dizem.
Acho que não deixava o trabalho. A minha vida sempre foi trabalhar, acho que não saberia como passar o tempo. Há dias em que dou o trabalho ao diabo e sou capaz de jurar que se um dia me saísse o prémio nunca mais punha os pés no trabalho. Mas no dia seguinte já me esqueci do que pensei.
A minha Idalina tinha ido passar uns dias à da mãe, que estava adoentada, coisas da idade avançada, já são setenta e dois. Quando vi a chave na televisão conferi três vezes. Não queria acreditar. Ainda fui confirmar os números à internet. Não fiquei aos gritos nem aos saltos como se poderia esperar. Sentia-me a pairar nas nuvens. Confesso que tive medo de que me desse alguma coisinha ruim com a emoção contida e eu ali sozinho. Eu pareço muito expansivo, mas quando a emoção é forte fecha-me. Também sou assim quando morre alguém querido, não consigo extravasar. Não costumo beber sozinho, mas fui abrir uma garrafa de uísque que tenho em casa há mais de vinte anos. Não foi tanto para festejar, foi mais para acalmar, tenho ouvido dizer que é muito bom para o coração. É verdade que caiu cá dentro e levantou-se um calor reconfortante como nunca tinha sentido.
Tive o sangue frio suficiente para não correr a telefonar a toda a gente. Nem à Idalina, porque tive medo de que ela não se contivesse e começasse a espalhar a notícia, pelos pais, pelos filhos, pelas amigas. Tive medo até de que se a notícia se espalhasse alguém me pudesse vir assaltar. Tinha medo até de falar ao telefone no assunto, quem sabe se os telefones não têm escutas? Tinha de esperar até segunda-feira e rumar a Lisboa. Acho que há um número de telefone para nos aconselhar nestes casos, mas na altura nem me lembrei de tal possibilidade. Teria de arranjar uma desculpa para ir a Lisboa sem ninguém desconfiar.
Não preguei olho toda a noite. A cogitar em como iria proteger o dinheiro, congeminei que o melhor seria distribuí-lo por muitas contas em vários bancos diferentes, com isto de nunca se saber qual vai falir a seguir. Valeria a pena trocar por outras moedas? Mas como? Teria de me informar sem dar nas vistas. Tinha ouvido dizer que a maneira mais rentável de investir nestes tempos era comprar dívida pública, porque era a que dava melhores juros e com mais garantias. Até há quem diga que é por isso que há dívida pública, porque é o negócio do momento. Teria de me informar como isso se faz. Às seis e trinta e sete, já a aurora tentava romper, decidi que não me podia fiar em ninguém que viesse com conselhos de como investir.
Convenci a minha mulher de que tinha que ir a Lisboa fazer um acção de formação da oficina. Convenci o patrão de que tinha que ir a Lisboa com a minha sogra a uma consulta. Tinha consciência de que podia ser descoberto, mas não era muito provável, e não me ocorreram desculpas melhores. A cabeça já latejava de ter que tomar tantas decisões em tão pouco tempo.
Decidi ir de comboio. Não estava habituado a conduzir em Lisboa, e achei que com as noites quase sem dormir era mais seguro. Procurei na internet a morada da Santa Casa e algum sítio ali perto que daria como endereço ao taxista para este não desconfiar quando lhe dissesse que queria ir para a Santa Casa. Todo o cuidado é pouco para defender o que é nosso.
Uma vez lá na Santa Casa tudo se revelou mais fácil do que tinha cismado. Havia lá uma equipa de algumas cinco pessoas muito simpáticas e que se apresentaram como estando exclusivamente ao meu serviço para o que fosse necessário. Não entendi muito bem o que eram, acho que uma era psicóloga e um era economista. Todos me inspiraram confiança, reforçada por ter encontrado lá a trabalhar um rapaz que conhecia por ser filho de um casal que tem uma casa ali metida à serra a caminho do Mioto e vêm muitas vezes beber o café e conversar com o pessoal da terra à venda da minha cunhada Lurdes, quando vêm de férias no verão ou mesmo por outras alturas. É gente muito simpática e popular; não sabia que o filho trabalhava na Santa Casa, foi uma surpresa agradável. Tenho alguma convivência com eles e conheço bem o caminho e a casa porque fui algumas vezes por causa dos carros.
Resolvi que iria distribuir o dinheiro entre as quatro famílias, nós e os três filhos. Que cada um resolva como tratar dele. Nunca mais pensei no churrasco nem nos envelopes, afinal dividido pela família toda não era assim tanto dinheiro: só vinte e sete milhões.
Vinha já a atravessar a serra antes de começar a descer para o Mioto quando vi o carro parado e uma senhora a labutar às escuras com a roda e o macaco. Esqueci-me de dizer que tinha comprado um todo‑o‑terreno mesmo antes de a família saber da sorte que nos tinha tocado. Sempre desejei ter um todo‑o‑terreno, e entendi que merecia este prémio. Estava uma noite de chuva cerrada na serra e nem hesitei em parar para ajudar.
Só me lembro de ter acordado com o todo‑o‑terreno a circular acelerado pelas curvas da serra. Eu ia no banco de trás, com os olhos vendados e as mãos amarradas uma à outra. Tentei mexer-me e fui agarrado por braços fortes de ambos os lados. Todos em silêncio. Andámos muito tempo a circular pela serra, mais de uma hora, muito mais. Pela estrada alcatroada e por caminhos de terra.
Eu conheço a serra como as minhas mãos e a dada altura consegui localizar por onde íamos e notar que passámos várias vezes pelos mesmos sítios. Não disse nada, achei mais prudente. Quando íamos no caminho direito à casa do tal casal de que falei lá atrás fez-se-me luz. O motivo do rapto revelou-se-me claro. Como tinha podido ser tão ingénuo? Só me apetecia esbofetear-me. Mantive-me calado, achei mais seguro. Agora já sabia o motivo. O que iriam fazer? Iriam pedir resgate? Mas a quem, se a minha família nem ainda sabia de nada?
Foi quando percebi que o carro ia demasiado depressa para passar a valeta que eu sabia existir a menos de vinte metros. O cuidado com a minha pélvis, que fracturei há uns anos num acidente de mota, soou mais alto que o medo, e gritei em desespero:
— Cuidado com a valeta!
— E agora o que fazemos? — perguntou o do lugar do pendura com a voz a tremer, momentos depois de saltarmos com violência na valeta.
Começaram a discutir o que fazer comigo como se eu ali não estivesse. Agora que eu sabia onde estava, porque aquele caminho não ia para mais parte nenhuma; e que eles sabiam que eu sabia; e que eles já falavam abertamente sem disfarçar as vozes: presumi que tinha fortes razões para ter medo, muito medo.
Só vi o clarão, mesmo através da venda, seguido pelo enorme estrondo.
— Quando é que vão acabar com isto? Malditos festejos bárbaros! — gritei eu todo a tremer quando percebi que o estrondo do morteiro a inaugurar a festa dos Santos me tinha acordado.
Devo ter gritado bem alto porque a minha Idalina, que já estava na cozinha a fritar as fatias de ovos na enxúndia de galinha, e nem reparou no morteiro, veio ao quarto a correr ver o que se passava.