nostalgias

 
Os dias de férias sem fazer nada
as folgas à sombra da alfarrobeira
o fresquinho orvalho da madrugada
tardes de verão a nadar na ribeira.

Pisar a geada pela manhã
as tardes de inverno a ler à lareira
mais a chuva a cantar na telha vã
era tão bom viver desta maneira!

Mas tudo passa, tudo tem um fim
sempre pra velho, nunca pra rapaz
se dizes que não será porque mentes.

Já com os avós se passava assim
sempre prà frente, nunca para trás
há que ser afoito e cerrar os dentes.






despenteado mental


Com três neurónios vim ao mundo
cheguei de cabeça cheia
mas com este mundo imundo
a coisa foi ficando feia.

Com os padres fiz faísca
como era de esperar
quiseram lançar-me a isca
e impedir-me de pensar.

Perdi o primeiro, pois
destroçado no confronto
tive que ficar com dois
sem outro remédio, pronto!

Pus um para cada lado
e com a marrafa ao meio
andei sempre penteado
e nem parecia feio.

Mas a vida não parou 
e seguiu o seu caminho
quando o Cavaco chegou
arrumei o cavaquinho.

Para evitar misturas 
e fugir às maiorias
esta vida é só agruras
mas isso tu já sabias.

E no fim pouco sobrou
e fui cair lá no fundo
um só neurónio ficou
porque perdi o segundo.

Agora já tenho também
aquela manha já bem velha
o neurónio puxo bem
e vai de orelha a orelha. 

E assim será o meu fado
seja por bem ou por mal 
nem querido nem odiado
hei-de sempre ser chamado 
o despenteado mental.

que vais dizer aos teus netos?


Não falo para os que estão 
do outro lado 
da civilização
dizem-me para ter tacto
mas com quem
não há ponto 
de contacto
não está ao meu alcance.

Falo contigo
que te consideras amigo
da humanidade
e já perdeste a dignidade 
a solidariedade
e até a caridade
já só olhas de relance
e assobias para o lado.

Que vais dizer aos teus netos?
que não viste?
que não ouviste?
que não sabias de nada?


a aura

 
Antigamente era melhor
a linhagem as trazia
e de berço se aprendia
o seu uso, o seu cuidado.

Depois veio a populaça
sem respeito pela raça
e já qualquer professor
mesmo que seja filho
de gente sem pedigree
pode adquirir uma aura
não de ouro, não de prata
(isso é que era bom!)
lá se ia o ordenado.

Uma de arame lhe basta
à altura da baixa casta
e nem a sabe cuidar
para não perder o brilho.

Devem limpar-se a diário
com Solarine do antigo
digo eu que sou amigo
e nem sou nenhum otário.

E mais ainda te digo
de todo o meu coração
digo e insisto
que oiças o ministro
nas suas palavras breves
e nunca a leves
à manifestação
que a bandalheira se instaura
e lá se vai a aura
da tua profissão.







o vento


O vento sopra
a chama
do candeeiro.

O vento de Janeiro
assobia
nas frestas
da velha porta.

O vento vai ter comigo
à cama
um frio que corta
de manhã cedo.

O vento tenta
voltar as telhas
das casas velhas.

O vento sacode a rama
derruba a fruta
o vento é filha-da-puta!

O vento brame
e ronca também
o vento uiva 
o vento urra
o vento mete medo
o vento faz tremer.

Porém
sem vento 
pra mover a nuvem
ou não chovia
ou não parava de chover.

mudança

 
Nem sempre é muito certo 
aquilo que o povo diz
mas às vezes anda perto
mesmo sem ir à raiz.

É para desconfiar
é saber universal 
que muito tenha que mudar
pra tudo ficar igual.

Nestes tempos turbulentos
todos falam em mudança
mas temos que estar atentos
pra não alinhar na dança.

O pobre vive enganado
ao alimentar esperança
que puxem para o seu lado
os que têm cheia a pança.